Quando o Cupido Era Humanizado e Não Tinha Escala
Em 2001, ninguém queria admitir que usava site de relacionamento. Era coisa de quem "não conseguia pelos meios tradicionais". Tati Gracia vivia o paradoxo: co-fundou o Par Perfeito, primeiro site de matchmaking do Brasil, mas seus usuários escondiam que estavam lá.
O produto não era só tecnologia. Era terapia disfarçada de algoritmo. Tati recebia entre 30 e 40 e-mails por dia de pessoas buscando conexão — ou autoconhecimento. Não havia automação. Não havia ChatGPT. Era ela, um ser humano, lendo histórias e tentando ajudar.
Quando você consegue enxergar o ser humano por trás do código, que para mim é emblemático, Neo fazendo isso na cena de Matrix, quando ele entende e lê o código, ele muda o sistema.
— Tati Gracia
A monetização veio quando criaram um sistema de afinidade que cruzava perfis e sinalizava quem estava online — tecnologia inexistente na época. Inspirados no Match.com, transformaram o site em modelo de assinatura. A taxa de conversão era "violenta". Relacionamento é conteúdo caro o suficiente para pagar.
Lançar Carro pela Internet Antes de Elon Musk Existir
Aos 24 anos, Tati trocou a startup carioca por um projeto gigante: lançar o primeiro carro pela internet no Brasil. Pela Ford. Em São Bernardo do Campo. Sozinha com a irmã, deu ré na Anchieta porque errou a saída — não existia Waze.
O que ela construiu foi um ecossistema B2B2C antes do termo existir. Configurador de veículos online conectado ao CRM do Banco Ford. Quando o carnê do cliente estava perto de acabar, ele era estimulado a montar o próximo carro. O sistema checava estoque nos distribuidores e direcionava a venda.
A gente fazia um B2B2C, trabalhando já com um banco, uma financeira, trabalhando com os distribuidores e trabalhando com o consumidor final. Então a gente conseguia personalizar o carro dele, reduzia o tempo de espera direcionando para os nossos clientes, que eram os distribuidores, e melhorando a taxa no Banco Ford.
— Tati Gracia
O projeto ganhou mais de três vezes o Prêmio Best. Fez parceria com o portal iG — que na época era vermelho e virou azul Ford quando a parceria deu break-even. Derrubaram o site da Ford de tanta demanda. Naquela época, derrubar site era KPI de sucesso.
Mulheres Não Escolhiam Carro. Até Escolherem o Banco Preto
A Ford tinha 30% de penetração no público feminino. Queria crescer. O problema: mulher não decidia carro. Quando muito, escolhia a cor. Entre Tati e o presidente Antônio Maciel Neto, só havia homens.
Ela montou dois grupos. Um interno, multidisciplinar, só de mulheres: finanças, logística, indústria. Um externo, conselheiras como Hortência do basquete e Cris Arcângel. Tudo que a Ford queria lançar passava por elas.
Exemplo concreto: o lançamento do EcoSport, primeiro jipinho brasileiro. A equipe masculina queria banco de couro bege — sofisticado, status. As mulheres vetaram na hora.
O carro da gente é a nossa casa. Tem criança que passa mal, eu jogo meu sapato, pisa no banco. Eu não tenho condição de ficar lavando o carro a cada momento que meu filho ou cai meu batom ou qualquer coisa. Isso vai atrapalhar a nossa vida. Pelo amor de Deus.
— Tati Gracia
O EcoSport foi lançado com banco escuro. Parece óbvio hoje. Há 15 anos, não era.
O Risco de Trocar Gente por IA
Tati começou a carreira em call center atendendo reclamações de internet discada 24 horas por dia. De manhã, um tipo de reclamação. De tarde, outro. De madrugada, "sem leis". Foi ali que ela entendeu: tecnologia serve ao humano, não o contrário.
Duas décadas depois, o alerta segue atual. Ela usa ChatGPT e ama IA. Mas vê um risco claro: pessoas trocando conexões humanas por conversas com máquinas. Reduzindo redes de apoio. Achando que robôs resolvem problemas humanos.
A diferença é estrutural. IA se baseia em fatos do passado. Ser humano se baseia em fatos do futuro — sonhos. Se ninguém sonhar, nada se realiza. Tecnologia sem propósito humano vira código vazio.
No Par Perfeito, Tati casou muita gente. Até hoje encontra pessoas que dizem: "Meu pai usou, minha mãe também." Uma vez, no café de uma empresa, alguém bateu em suas costas: "Só queria te dizer que hoje eu sou casada por causa de você."
Não foi o algoritmo. Foi alguém que enxergou o ser humano por trás da tela.
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Growth Director insights
Deep Growth (Brazil) · 86 min
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